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Política Nobel da Paz

Vitória de Ressa e Muratov renova esperanças no jornalismo

Berit Reiss-Anderson afirmou que a filipina e o russo "são representantes de todos os jornalistas que defendem este ideal em um mundo em que a democracia e a liberdade de imprensa enfrentam condições cada vez mais adversas"

08/10/2021 16h48
Por: Evilásio Júnior
Reprodução/Prêmio Nobel
Reprodução/Prêmio Nobel

Um amigo meu de longa data me disse há poucos dias que a melhor coisa que aconteceu a ele foi ter migrado de profissão. Me recomendou fazer o mesmo: deixar o jornalismo, que não teria mais futuro, e passar a atuar nas mídias sociais. 

 

Mesmo que relutasse em considerar a hipótese, de fato comecei a buscar informações sobre cursos para me capacitar e ingressar no tal novo mundo. No entanto, sofri náuseas só de pensar em abandonar uma carreira pela qual sou apaixonado e, como ele mesmo diz, costumo atuar no "esquema de trabalhar até desmaiar". Eis que na madrugada desta sexta-feira (8) veio o alento: o Nobel da Paz para os jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratov.

 

Por que o fato é importante para o mercado? No momento em que a imprensa é desacreditada por uma avalanche de notícias falsas ou rasamente apuradas, explosão de sites e perfis cujo único critério de noticiabilidade é atender aos interesses dos seus senhores, além dos sistemáticos ataques de governos aos produtores de conteúdo críveis e responsáveis, como se fossem semelhantes aos pseudo-escribas, o prêmio vem como um farol a iluminar que, apesar de estar na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas, há chance de recuperação para o periodismo.

 

Eu mesmo cheguei ao topo como um dos principais jornalistas de Salvador, mas perdi a fé no mercado baiano por professar a tese do escritor Millôr Fernandes, de que "jornalismo é oposição". Obviamente, toda empresa visa o lucro e não me alongarei aqui ao falar do histórico conflito de interesses entre redações e departamentos comerciais. A academia explica. Embora tenha permanecido mais de nove anos em um dos principais sites de política da cidade, sete deles como editor, em que convenci os meus superiores em 90% dos debates éticos, em outros espaços por onde andei ganhei a pecha de "kamikaze", "xiita" e "encrenqueiro". Sem competência contestada, tive portas fechadas por não admitir o uso do jornalismo para terrorismo empresarial, cometimento de crime eleitoral e a hoje tão comum proliferação de "repórteres" de política que ao mesmo tempo são assessores de deputados e vereadores. Parti para São Paulo, por acreditar na isonomia da megalópole.

 

Em meio ao conflito interno, a resposta sobre a importância da imprensa livre e independente foi dada às empresas de comunicação e aos profissionais do segmento pelo presidente do conselho do Nobel. Berit Reiss-Anderson afirmou que a filipina e o russo "são representantes de todos os jornalistas que defendem este ideal em um mundo em que a democracia e a liberdade de imprensa enfrentam condições cada vez mais adversas". 

 

O histórico fato pode não significar a minha particular redenção, mas indubitavelmente é um marco de que há vida para além dos "armazéns de secos e molhados". 

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